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Uniformes de 1815 a 1833

 DIVERSOS TEMAS SOBRE UNIFORMES

Os abusos sobre a má utilização dos uniformes, por esta época, eram muito frequentes apesar das sucessivas recomendações durante a Guerra Peninsular como depois, neste sentido torna-se extremamente complexo e difícil fazer-se um trabalho completo na medida em que nos aparecem figurinos onde não se sabe como e em que época foram introduzidos, por exemplo: as barretinas de pele nos tambores-mores e porta-macha-dos? Os galões em “V” invertido ao longo das mangas e os alamares no peito das casacas dos músicos? Isto já sem falar na diversidade de chapas das barretinas; e as jaquetas dos caçadores extremamente decoradas nas golas, mangas e costas? Existem figurinos assim com a data de 1816… mas onde estão os documentos? Serão as gravuras fruto de imaginação? Perderam-se os modelos? Estarão enterradas no fundo de algum arquivo, público ou privado? Não se sabe!…

Soldado de Caçadores Realistas (1831) Infantaria (1826) Oficial de cavalaria (c.1832)

Na Ordem do Dia de 22 de Outubro de 1814 a dada altura lê-se: “Tem o Sr. Marechal visto, nesta corte, muitos oficiais de diferentes corpos com variações nos seus uniformes, trazendo bandas do uniforme de outra nação, e adornos de capricho, quando os prescritos pelas leis e ordens, posto que sejam menos aparatosos, são suficientes para adereçarem o oficial e próprios para os fins a que foram destinados: e espera o Sr. Marechal, que daqui para diante andarão os oficiais de uniforme rigorosos, podendo usar de sobrecasaca em dias de chuva, ou mau tempo.”

CALÇAS DOS OFICIAIS

“ Quanto à permissão dada na ordem de 4 de Março de 1811, para os Srs. Oficiais poderem em campanha usar, por comodidade, pantalonas de cor diferente da do uniforme, fica inteiramente suspensa por ter cessado o motivo; crê S. Ex.ª, que os oficiais tendo as azuis para de manhã e as brancas para a tarde, têm tudo o que podem desejar.”

Apesar das recomendações os militares, principalmente os oficiais, continuavam a “fardarem-se” conforme o seu gosto e posses; com o fim da guerra “o trajar a capricho” agravou-se e a mistura de roupa civil com a militar era uma constante. Estas tendências já vinham de longa data, na medida em que sempre tivemos propensão para o “novo rico”, para o espalhafato, aliado a um folclórico mau gosto (nos dia de hoje chamar-lhe-íamos “pimba”)… este modo “faceiro” de se ataviarem exageradamente com bordados, requifes, passamanes, borlas e muitos galões de ouro, prata, penachos, veludos, etc., sempre foi contrariado pelos chefes militares estrangeiros que estiveram ao nosso serviço, uma vez que os nossos oficiais “mais pareciam saídos de uma opereta  do que militares” assim aconteceu no século XVIII com a vinda do Conde Lippe que publicou o primeiro Regulamento de Uniformes, que veio pôr ordem a este estado de coisas, embora tenha sido sub-repticiamente contrariado, mas graças à sua disciplina férrea, consegui dar ás tropas dignidade castrense. Após a sua retirada do País, as coisas aos poucos voltaram à mesma…

Com a vinda de Beresford de novo encetou a mesma luta de Lippe, o que conseguiu, graças às revistas e inspecções surpresa que se efectuavam aos aquartelamentos, mas como não se podia estar em todos os locais ao mesmo tempo e as deslocações, por essa época, eram morosas e com o País em guerra, esta tarefa tornava-se difícil, daí os abusos terem continuado, embora numa escala mais pequena.

Para provar o que acima ficou expresso, quando Beresford se deslocou ao Brasil, tudo afrouxou novamente e a anarquia nos uniformes instalou-se de tal modo que mal o Marquês de Campo Maior regressou, publicou na Ordem do Dia de 6 de Janeiro de 1817 o seguinte:

-“ O Ilustre e Exmo. Sr. Marechal General Marquês de Campo Maior viu, logo que chegou do Rio de Janeiro, a pouca atenção, que os oficiais do exército em geral mostravam às ordens relativas ao seu próprio vestuário; e depois tem visto com admiração, que a falta de atenção a estas ordens, já por bastantes vezes notada nas Ordens, tem aumentado de modo, que parece que todos os oficiais se julgam com a liberdade de se vestirem segundo a sua fantasia. S. Exa. está certo, de que é bastante chamar a reflexão dos oficiais sobre uma falta, que pode ter más consequências pelo exemplo, que dá aos soldados, e que em nenhum caso pode produzir vantagens; antes abate aos olhos do público, ou dos observadores superficiais aquela opinião, que o exército realmente merece. S. Exa. ordena portanto, que todos os oficiais empregados (caso não tenham permissão de S. Exa. para o contrario) tragam todo o tempo e lugar o seu uniforme, e isto segundo está ordenado por S. M. el-rei nosso senhor, e prescrito nas Ordens; e que os indivíduos de cada arma usem do seu uniforme competente; e cada oficial o do seu posto, graduação e corpo. Os oficiais licenciados, ou não empregados, podem trajar à paisana; mas então é necessário que não tragam coisa alguma do uniforme, senão de tarde, quando fizerem visitas, chapéu armado (bicórneo) com laço militar. S. Exa. espera não tornar a ver daqui em diante bordaduras, ou galões nas fardas, coletes ou calças, em que as regulações de S. M. não manda traze-los, nem sobre as mangas, ou golas dos oficiais de caçadores; nem também chapéus armados a oficiais, que não os têm nos seus uniformes (excepto no caso em que fica permitido nas sociedades aos oficiais licenciados e não empregados). Se o tempo tornar necessário fazer uso de sobrecasaca, veste-se esta por cima do uniforme, que o oficial deve trazer indefectivelmente. Finalmente, todo o oficial deve vestir-se conforme as ordens; e S. Ex.ª está certo, que não há trajo mais barato, nem mais elegante do que o uniforme simples, ainda que distintivo do exército de S. M., e não pode conceber como os oficiais prefiram trazer nas sociedades antes o vestuário paisano, do que o uniforme militar. Os Srs. Generais de Províncias, Governadores de Praças, Generais de Divisões e de Brigadas, Comandantes de Corpos e especialmente os Inspectores das diferentes armas e todas as mais pessoa a quem compete, terão todo o cuidado de vigiarem no exacto e imediato cumprimento desta ordem.”

 

Caçadores e infantaria (1832)

Apesar de tudo a confusão continuou, Beresford com a publicação da Ordem do Dia de 5 de Fevereiro de 1817, tirou as restantes dúvidas sobre a correcta utilização dos uniformes:

-“ S. Exa. o Sr. Marechal General Marquês de Campo Maior, esperando que o objecto e espírito da sua Ordem do dia 6 de Janeiro, são presentemente bem conhecidos e seguidos, permite as observações seguintes: todo o oficial fazendo viagem de mais de um dia, de onde reside o seu corpo, pode vestir-se com sobrecasaca trazendo a banda por cima, e igualmente todo o oficial do Estado-Maior quando estiver empregado em reconhecimento de terreno, ou ouro serviço desta natureza e separado das tropas. Os Generais e Estado-Maior das Divisões e Brigadas se regularão pelo primeiro caso, por que S. Ex.ª não deseja supor, que estes oficiais saindo, de suas casas, ou de qualquer quartel de tropa para outro, com o destino de a ver, se ponham para isto sem os seus uniformes. Vendo S. Ex.ª o grande inconveniente que causam as barretinas dos oficiais, permite que os oficiais possam ir às sociedades de noite com chapéus armados, mas jamais fora deste caso.”

“ S. Ex.ª não pode deixar de observar, que os oficiais de todas as graduações se sirvam de dragonas muito mais dispendiosas do que requerem as Ordens, ou os modelos dados por elas por S. M.. Não deseja S. Ex.ª privar os oficiais de terem as suas dragonas mais ricas, mas se isto lhes agrada, não devem pois queixar-se da despesa dos seus uniformes, por serem obrigados a traze-las durante todo o tempo, por que certamente o vestuário do uniforme em si, do oficial regimental, não custa mais, ou tanto como a sobrecasaca e não pode portanto ser mais dispendioso; mas em todo o caso, todo o oficial deve sempre aparecer em publico com o uniforme, não se entendendo isto, quando o oficial vai à caça ou a outra diversão campestre. S. Ex.ª recomenda de novo a exacta execução desta Ordem”.

Após os esclarecimentos feitos nas duas Ordens do Dia e dos constantes avisos tudo leva a entender que não surtiram lá grande efeito, pois ninguém cumpria e cada um andava como mais lhe agradava; assim,  passou-se à ameaça de prisão e na Ordem do Dia de 17 de Março de 1817 insistia-se “ as ordens de 6 de Janeiro e 5 de Fevereiro do corrente ano, estão longe se serem cumpridas, particularmente nesta capital, onde S. Ex.ª mesmo as tem visto transgredidas por alguns oficiais; recomenda novamente aos Srs., Generais e Comandantes de Corpos a sua exacta observância; e determina, que prendam logo todo o oficial, que virem sem rigoroso uniforme, não estando compreendido nas excepções, que as mesmas Ordens designam; e que os Majores e Ajudantes dos Corpos vigiem a sua execução; e igualmente os Capitães das Companhias a respeito dos seus subalternos. E não pode o Sr. Marechal General deixar de repreender o Major do Regimento de Infantaria n.º. . . que sendo encontrado na tarde de 28 do mês passado numa rua de Tavira, vestido à paisana, pelo Sr. Coronel. . . pretendeu desculpar-se alegando que ia passear ao campo, desculpa bem alheia da letra, e espírito da segunda das referidas ordens. E é bem desgostoso que o Sr. Marechal General verifique, que os oficiais queiram prevalecer-se para as transgredirem daquelas mesmas contemplações ou indulgencias, que teve com eles, combinando a sua comodidade com o asseio militar; o que continuando será motivo, que obrigará a S. Exa. a suspender as indulgencias que concedeu.”

Curiosa torna-se a Ordem do Dia de 9 de Setembro de 1817 onde se expressa o seguinte: “ Constando ao Ilustríssimo e Exmo. Sr. Marechal General Marquês de Campo Maior, pelas revistas de inspecção, que se tem passado aos diferentes Corpos de Infantaria, que há uma grande irregularidade nas fardas, bandas,  número (quantidades) de botões, ornatos de barretinas e dragonas; e que alguns oficiais superiores não usam de gola, quando estão de serviço e têm boldriés e espadas de cavalaria, ou ao seu arbítrio; para que acabe de uma vez semelhante irregularidade, determina S. Ex.ª que nenhum, oficial use de uniforme algum, que não seja o determinado pelo Regulamento de Uniformes do Exército, publicado por ordem de S. M. em 19 de Maio de 1806; exceptuando a Cavalaria que deve usar de pantalonas por cima das botas, de espadas e barretinas actuais; o feitio e cordões das barretinas de infantaria e as pantalonas, devem conservar-se como agora usa: e faz responsáveis os Srs. Comandantes dos Corpos pela mínima falta a este respeito”.

Cena da guerra civil (pintura de Carlos Alberto santos)

Após a leitura desta Ordem as interrogações apresentadas tornam-se ainda maiores… questionando-se o seguinte: após o Plano de 1815 (manuscrito) e as poucas gravuras (talvez contemporâneas) e outras ilustrações, muito mais modernas, de Ribeiro Artur, Carlos Ribeiro, Satúrio Pires, Carlos Alberto Santos, Garcês, etc., têm algumas semelhanças ao Plano de 1815, contudo esta última Ordem (1817) diz-nos que é expressamente proibido utilizar seja o que for que não venha no Plano de 1806, com alguma excepções… pergunta-se: afinal em que é que ficamos? Chega-se à conclusão que após a Guerra Peninsular e, pelo menos, até 1817 nada mudou?… Tudo leva a concluir que alguma coisa foi alterada! Mas a dúvida persiste do seguinte modo: a cavalaria usa barretinas, botas e pantalonas que devem ser as de 1811, revalidadas em 1815. A espada e barretinas não se conhecem os desenhos oficiais dos modelos. A Infantaria não tinha cordões nas barretinas, aqui já aparecem com cordões e o feitio como seria? E as calças? Continua tudo sem o desenho oficial do modelo…

E ao longo das Ordens do Dia vai-se verificando constantemente as chamadas de atenção sobre o abusos e a má utilização dos uniformes e a partir de 1820, com as constantes revoluções e conflitos, tudo se agudizou e durante a Guerra Civil estes casos passaram-se dos dois lados desavindos. Tendo tudo acalmado após a publicação do Plano de Uniformes Liberal de 1834. Será que assim foi?…

Porta-machado (1832) Soldado de caçadores (c.1833)

Pelo que acima foi exposto facilmente se poderá verificar a dificuldade que existe em descrever os uniformes durante este período, pelo que decidi não apresentar os desenhos esquemáticos como habitualmente, mas sim algumas fontes iconográficas, contemporâneas (?) e outras mais modernas, cabendo ao leitor fazer um juízo do que poderá estar mais ou menos correcto. Penso ser bastante curioso fazer assim uma primeira abordagem a esta época, que embora confusa, é extremamente interessante na medida em que não se tem “bem a certeza”, ou então cada um terá as “suas certezas”…


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