DIVERSOS TEMAS SOBRE UNIFORMES
Os abusos sobre a má
utilização dos uniformes, por esta época, eram muito
frequentes apesar das sucessivas recomendações durante a
Guerra Peninsular como depois, neste sentido torna-se
extremamente complexo e difícil fazer-se um trabalho
completo na medida em que nos aparecem figurinos onde
não se sabe como e em que época foram introduzidos, por
exemplo: as barretinas de pele nos tambores-mores e
porta-macha-dos? Os galões em “V” invertido ao longo das
mangas e os alamares no peito das casacas dos músicos?
Isto já sem falar na diversidade de chapas das
barretinas; e as jaquetas dos caçadores extremamente
decoradas nas golas, mangas e costas? Existem figurinos
assim com a data de 1816… mas onde estão os documentos?
Serão as gravuras fruto de imaginação? Perderam-se os
modelos? Estarão enterradas no fundo de algum arquivo,
público ou privado? Não se sabe!…
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Soldado de Caçadores
Realistas (1831) |
Infantaria (1826) |
Oficial de cavalaria (c.1832) |
Na Ordem do Dia de 22 de
Outubro de 1814 a dada altura lê-se: “Tem o Sr. Marechal
visto, nesta corte, muitos oficiais de diferentes
corpos com variações nos seus uniformes, trazendo bandas
do uniforme de outra nação, e adornos de capricho,
quando os prescritos pelas leis e ordens, posto que
sejam menos aparatosos, são suficientes
para adereçarem o oficial e próprios para os fins a que
foram destinados: e espera o Sr. Marechal, que daqui
para diante andarão os oficiais de uniforme rigorosos,
podendo usar de sobrecasaca em dias de chuva, ou mau
tempo.”
CALÇAS
DOS OFICIAIS
“ Quanto à permissão dada na
ordem de 4 de Março de 1811, para os Srs. Oficiais
poderem em campanha usar, por comodidade, pantalonas de
cor diferente da do uniforme, fica inteiramente suspensa
por ter cessado o motivo; crê S. Ex.ª, que os oficiais
tendo as azuis para de manhã e as brancas para a tarde,
têm tudo o que podem desejar.”
Apesar das recomendações os
militares, principalmente os oficiais, continuavam a
“fardarem-se” conforme o seu gosto e posses; com o fim
da guerra “o trajar a capricho” agravou-se e a mistura
de roupa civil com a militar era uma constante. Estas
tendências já vinham de longa data, na medida em que
sempre tivemos propensão para o “novo rico”, para o
espalhafato, aliado a um folclórico mau gosto (nos dia
de hoje chamar-lhe-íamos “pimba”)… este modo “faceiro”
de se ataviarem exageradamente com bordados, requifes,
passamanes, borlas e muitos galões de ouro, prata,
penachos, veludos, etc., sempre foi contrariado pelos
chefes militares estrangeiros que estiveram ao nosso
serviço, uma vez que os nossos oficiais “mais pareciam
saídos de uma opereta do que militares” assim aconteceu
no século XVIII com a vinda do Conde Lippe que publicou
o primeiro Regulamento de Uniformes, que veio pôr ordem
a este estado de coisas, embora tenha sido
sub-repticiamente contrariado, mas graças à sua
disciplina férrea, consegui dar ás tropas dignidade
castrense. Após a sua retirada do País, as coisas aos
poucos voltaram à mesma…
Com a vinda de Beresford de
novo encetou a mesma luta de Lippe, o que conseguiu,
graças às revistas e inspecções surpresa que se
efectuavam aos aquartelamentos, mas como não se podia
estar em todos os locais ao mesmo tempo e as
deslocações, por essa época, eram morosas e com o País
em guerra, esta tarefa tornava-se difícil, daí os abusos
terem continuado, embora numa escala mais pequena.
Para provar o que acima
ficou expresso, quando Beresford se deslocou ao Brasil,
tudo afrouxou novamente e a anarquia nos uniformes
instalou-se de tal modo que mal o Marquês de Campo Maior
regressou, publicou na Ordem do Dia de 6 de Janeiro de
1817 o seguinte:
-“ O Ilustre e Exmo. Sr.
Marechal General Marquês de Campo Maior viu, logo que
chegou do Rio de Janeiro, a pouca atenção, que os
oficiais do exército em geral mostravam às ordens
relativas ao seu próprio vestuário; e depois tem visto
com admiração, que a falta de atenção a estas ordens, já
por bastantes vezes notada nas Ordens, tem aumentado de
modo, que parece que todos os oficiais se julgam
com a liberdade de se vestirem segundo a sua fantasia.
S. Exa. está certo, de que é bastante chamar a reflexão
dos oficiais sobre uma falta, que pode ter más
consequências pelo exemplo, que dá aos soldados, e que
em nenhum caso pode produzir vantagens; antes abate aos
olhos do público, ou dos observadores superficiais
aquela opinião, que o exército realmente merece. S. Exa.
ordena portanto, que todos os oficiais empregados (caso
não tenham permissão de S. Exa. para o contrario) tragam
todo o tempo e lugar o seu uniforme, e isto segundo está
ordenado por S. M. el-rei nosso senhor, e prescrito nas
Ordens; e que os indivíduos de cada arma usem do seu
uniforme competente; e cada oficial o do seu posto,
graduação e corpo. Os oficiais licenciados, ou não
empregados, podem trajar à paisana; mas então é
necessário que não tragam coisa alguma do uniforme,
senão de tarde, quando fizerem visitas, chapéu armado
(bicórneo) com laço militar. S. Exa. espera não
tornar a ver daqui em diante bordaduras, ou galões nas
fardas, coletes ou calças, em que as regulações
de S. M. não manda traze-los, nem sobre as mangas,
ou golas dos oficiais de caçadores; nem também
chapéus armados a oficiais, que não os têm nos seus
uniformes (excepto no caso em que fica permitido nas
sociedades aos oficiais licenciados e não empregados).
Se o tempo tornar necessário fazer uso de sobrecasaca,
veste-se esta por cima do uniforme, que o oficial deve
trazer indefectivelmente. Finalmente, todo o oficial
deve vestir-se conforme as ordens; e S. Ex.ª está certo,
que não há trajo mais barato, nem mais elegante do que o
uniforme simples, ainda que distintivo do exército de S.
M., e não pode conceber como os oficiais prefiram trazer
nas sociedades antes o vestuário paisano, do que o
uniforme militar. Os Srs. Generais de Províncias,
Governadores de Praças, Generais de Divisões e de
Brigadas, Comandantes de Corpos e especialmente os
Inspectores das diferentes armas e todas as mais pessoa
a quem compete, terão todo o cuidado de vigiarem no
exacto e imediato cumprimento desta ordem.”
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Caçadores e infantaria (1832) |
Apesar de
tudo a confusão continuou, Beresford com a publicação da
Ordem do Dia de 5 de Fevereiro de 1817, tirou as
restantes dúvidas sobre a correcta utilização dos
uniformes:
-“ S. Exa. o
Sr. Marechal General Marquês de Campo Maior, esperando
que o objecto e espírito da sua Ordem do dia 6 de
Janeiro, são presentemente bem conhecidos e seguidos,
permite as observações seguintes: todo o oficial fazendo
viagem de mais de um dia, de onde reside o seu corpo,
pode vestir-se com sobrecasaca trazendo a banda por
cima, e igualmente todo o oficial do Estado-Maior quando
estiver empregado em reconhecimento de terreno, ou ouro
serviço desta natureza e separado das tropas. Os
Generais e Estado-Maior das Divisões e Brigadas se
regularão pelo primeiro caso, por que S. Ex.ª não deseja
supor, que estes oficiais saindo, de suas casas, ou de
qualquer quartel de tropa para outro, com o destino de a
ver, se ponham para isto sem os seus uniformes. Vendo S.
Ex.ª o grande inconveniente que causam as barretinas dos
oficiais, permite que os oficiais possam ir às
sociedades de noite com chapéus armados, mas jamais fora
deste caso.”
“ S. Ex.ª
não pode deixar de observar, que os oficiais de todas as
graduações se sirvam de dragonas muito mais dispendiosas
do que requerem as Ordens, ou os modelos dados por elas
por S. M.. Não deseja S. Ex.ª privar os oficiais de
terem as suas dragonas mais ricas, mas se isto lhes
agrada, não devem pois queixar-se da despesa dos seus
uniformes, por serem obrigados a traze-las durante todo
o tempo, por que certamente o vestuário do uniforme em
si, do oficial regimental, não custa mais, ou tanto como
a sobrecasaca e não pode portanto ser mais dispendioso;
mas em todo o caso, todo o oficial deve sempre aparecer
em publico com o uniforme, não se entendendo isto,
quando o oficial vai à caça ou a outra diversão
campestre. S. Ex.ª recomenda de novo a exacta execução
desta Ordem”.
Após os
esclarecimentos feitos nas duas Ordens do Dia e dos
constantes avisos tudo leva a entender que não surtiram
lá grande efeito, pois ninguém cumpria e cada um andava
como mais lhe agradava; assim, passou-se à ameaça de
prisão e na Ordem do Dia de 17 de Março de 1817
insistia-se “ as ordens de 6 de Janeiro e 5 de Fevereiro
do corrente ano, estão longe se serem cumpridas,
particularmente nesta capital, onde S. Ex.ª mesmo as tem
visto transgredidas por alguns oficiais; recomenda
novamente aos Srs., Generais e Comandantes de Corpos a
sua exacta observância; e determina, que prendam
logo todo o oficial, que virem sem rigoroso uniforme,
não estando compreendido nas excepções, que as mesmas
Ordens designam; e que os Majores e Ajudantes dos Corpos
vigiem a sua execução; e igualmente os Capitães das
Companhias a respeito dos seus subalternos. E não pode o
Sr. Marechal General deixar de repreender o Major do
Regimento de Infantaria n.º. . . que sendo encontrado na
tarde de 28 do mês passado numa rua de Tavira, vestido à
paisana, pelo Sr. Coronel. . . pretendeu desculpar-se
alegando que ia passear ao campo, desculpa bem alheia da
letra, e espírito da segunda das referidas ordens. E é
bem desgostoso que o Sr. Marechal General verifique, que
os oficiais queiram prevalecer-se para as transgredirem
daquelas mesmas contemplações ou indulgencias, que teve
com eles, combinando a sua comodidade com o asseio
militar; o que continuando será motivo, que obrigará a
S. Exa. a suspender as indulgencias que concedeu.”
Curiosa
torna-se a Ordem do Dia de 9 de Setembro de 1817 onde se
expressa o seguinte: “ Constando ao Ilustríssimo e Exmo.
Sr. Marechal General Marquês de Campo Maior, pelas
revistas de inspecção, que se tem passado aos diferentes
Corpos de Infantaria, que há uma grande
irregularidade nas fardas, bandas, número
(quantidades) de botões, ornatos de barretinas e
dragonas; e que alguns oficiais superiores não
usam de gola, quando estão de serviço e têm
boldriés e espadas de cavalaria, ou ao seu arbítrio;
para que acabe de uma vez semelhante irregularidade,
determina S. Ex.ª que nenhum, oficial use de uniforme
algum, que não seja o determinado pelo Regulamento de
Uniformes do Exército, publicado por ordem de S. M. em
19 de Maio de 1806; exceptuando a Cavalaria que
deve usar de pantalonas por cima das botas, de espadas e
barretinas actuais; o feitio e cordões das
barretinas de infantaria e as pantalonas, devem
conservar-se como agora usa: e faz responsáveis
os Srs. Comandantes dos Corpos pela mínima falta a este
respeito”.
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Cena da guerra civil
(pintura de Carlos Alberto
santos) |
Após a
leitura desta Ordem as interrogações apresentadas
tornam-se ainda maiores… questionando-se o seguinte:
após o Plano de 1815 (manuscrito) e as poucas gravuras
(talvez contemporâneas) e outras ilustrações, muito mais
modernas, de Ribeiro Artur, Carlos Ribeiro, Satúrio
Pires, Carlos Alberto Santos, Garcês, etc., têm algumas
semelhanças ao Plano de 1815, contudo esta última Ordem
(1817) diz-nos que é expressamente proibido
utilizar seja o que for que não venha no Plano de 1806,
com alguma excepções… pergunta-se: afinal em que
é que ficamos? Chega-se à conclusão que após a Guerra
Peninsular e, pelo menos, até 1817 nada mudou?… Tudo
leva a concluir que alguma coisa foi alterada! Mas a
dúvida persiste do seguinte modo: a cavalaria usa
barretinas, botas e pantalonas que devem ser as de 1811,
revalidadas em 1815. A espada e barretinas não se
conhecem os desenhos oficiais dos modelos. A Infantaria
não tinha cordões nas barretinas, aqui já aparecem com
cordões e o feitio como seria? E as calças? Continua
tudo sem o desenho oficial do modelo…
E ao longo
das Ordens do Dia vai-se verificando constantemente as
chamadas de atenção sobre o abusos e a má utilização dos
uniformes e a partir de 1820, com as constantes
revoluções e conflitos, tudo se agudizou e durante a
Guerra Civil estes casos passaram-se dos dois lados
desavindos. Tendo tudo acalmado após a publicação do
Plano de Uniformes Liberal de 1834. Será que assim foi?…
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Porta-machado (1832) |
Soldado de caçadores (c.1833) |
Pelo que
acima foi exposto facilmente se poderá verificar a
dificuldade que existe em descrever os uniformes durante
este período, pelo que decidi não apresentar os desenhos
esquemáticos como habitualmente, mas sim algumas fontes
iconográficas, contemporâneas (?) e outras mais
modernas, cabendo ao leitor fazer um juízo do que poderá
estar mais ou menos correcto. Penso ser bastante curioso
fazer assim uma primeira abordagem a esta época, que
embora confusa, é extremamente interessante na medida em
que não se tem “bem a certeza”, ou então cada um terá as
“suas certezas”…
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