POR: MANUEL A. RIBEIRO RODRIGUES
DIVISÃO AUXILIAR A ESPANHA
1793 A 1795
(Rossilhão e Catalunha)
I
PREÂMBULO
A revolução francesa entrara no seu
período mais sanguinário, todas as crueldades e
excessos se praticavam em nome da nova república
onde a guilhotina não parava de laborara em todos os
patíbulos que se iam erguendo ao longo da França com
maior incidência na capital. Todos estes excessos
eram devidos a uma reacção em cadeia e violentíssima
que acabava por sintetizar, em quatro anos, a
repressão e os abusos exercidos durante séculos
sobre a população.
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Figura 01 - A lei da
guilhotina |
Figura 02
- Tomada da Bastilha |
A Europa enganou-se
quando timidamente acolheu com entusiasmo moderado
os primeiros sinais de transformação política, tendo
aplaudido o heroísmo dos parisienses na tomada da
Bastilha... cedo se começou a verificar a realidade,
quando na noite de 6 de Outubro uma chusma de gente
selvagem e sanguinária, aprisionou a sua rainha,
Maria Antonieta, perante os maiores vexames, tendo
subido ao cadafalso em 1793 e nesse mesmo ano o seu
marido, Luís XVI, foi guilhotinado, decretando-se a
abolição da realeza em França.
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Figura 03 - Execução de Maria
Antonieta |
Figura 04
- Execução do Rei Luis XVI, 21 Janeiro de
1793 |
Foi com a
precipitação destes acontecimentos que todas as
monarquias europeias estremeceram do seu estado
letárgico e num brado geral reprovaram as medidas
tomadas pelos revolucionários.
Finda a campanha de
1792 as tropas republicanas francesas,
encontravam-se posicionadas na fronteira da Holanda,
na margem direita do Reno, nos cumes dos Alpes, na
margem esquerda do Var; entretanto o exército
comandado pelo General Servan vigiava, nos Pirenéus,
a movimentação das tropas espanholas, que seriam
tudo menos conciliadoras...
A Espanha, como era
de prever, declarou guerra à República Francesa e
pouco depois Portugal aliava-se com o reino vizinho,
estes factos ficaram a dever-se à invocação, pelos
espanhóis, do perigo que os tronos ibéricos corriam
e às alianças existentes entre os dois reinos,
conseguindo-se assim lançar uma nova potência contra
a nova república. A 15 de Junho de 1793, foi
assinado um tratado em Madrid entre D. Manuel Godoy,
Duque de Alcudia, futuro Príncipe da Paz, e D. Diogo
de Noronha, nosso embaixador junto à corte de
Madrid, que obrigava Portugal a enviar para os
Pirenéus uma Divisão Auxiliar.
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| Figura 05
- D. Manuel Godoy - Duque de Alcudia |
No dia 20 de Setembro
desse mesmo ano zarpou do Tejo, escoltado por
catorze navios de transporte, uma esquadrilha
composta pelas naus Medusa, Bom Sucesso e São
Sebastião, e pela fragata Vénus, todos estes navios
eram superiormente comandados pelo Chefe-de-Divisão
Pedro Mariz de Sousa Sarmento; nela embarcou a
Divisão Expedicionária sob o comando do
Tenente-General João Forbes Skellater que era
composta por cerca de cinco mil e quatrocentos
militares, que compunham seis regimentos de
infantaria e quatro companhias de artilharia. A
juntar-se a estes militares ainda ia um número
apreciável de voluntários nobres, estrangeiros,
principalmente franceses emigrados e portugueses;
neste incluíam-se o Duque de Northumberland, o
Príncipe de Montmorency e o marquês de Nisa.
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Figura 06 - Marechal de Campo
João Forbes Skellater |
Figura 06a
- Marquês de Nisa |
A viagem foi terrível
na medida em que a esquadra teve que fazer frente a
ventos contrários fortíssimos, tempestades e doenças
a bordo, o que fizeram dessa jornada um autentico
calvário, basta afirmar que partiram a 20 de
Setembro e só a 9 de Novembro é que as nossas tropas
desembarcaram em Rosas, na Catalunha, num estado de
comiseração extraordinário, basta pensar levaram
dois meses, menos onze dias, a percorrer essa curta
distância (sensivelmente de Lisboa a um pouco mais
acima de Barcelona). Após o desembarque, o general
Ricardos deu ordem de marcha às tropas portuguesas
que chegaram ao acampamento espanhol no dia 25 e 26
de Novembro, sofrendo as intempéries de uma dura
estação invernosa nos Pirenéus, chegando de tal modo
fatigadas e exaustas que mais pareciam que tinham
terminado um campanha desastrosa, quanto mais
irem-na começar, mas não foi por isso que não
deixámos de nos portar com grande valor colhendo a
admiração e aplauso dos nossos aliados e contrários.
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| Figura 07
- Desembarque das tropas Portuguesas na Baía
das Rosas |
A campanha de 1793
foi bastante favorável às nossas armas e a do ano
seguinte extremamente desastrosa culminando com a
entrega da praça de São Fernando de Figueras, onde
se deram combates terríveis tendo, de um e do outro
lado, havidas imensas perdas, morrendo o
General-em-Chefe do Exército Francês Dugomier, e do
outro o Conde da União, que de modo algum se
resignava ao desgosto de se ver vencido em terras de
Espanha. Cláudio de Chaby(1)
culmina
o período destas campanhas afirmando (...)
bastante glória adquiriram as armas peninsulares na
primeira campanha dos Pirenéus orientais em 1793, em
que lutando o engenho com a força, lograva aquele,
quase sempre, a superioridade: reveses sucessivos na
seguinte campanha, mas, por entre as desgraças,
brilhando resplendendo o valor dos filhos da
península, inutilizado valor pela tibieza de um
general, não bem aproveitado pela energia do outro,
de quem aliás, a mesma qualidade de valoroso era um
dos mais apreciáveis dotes (...).
Durante a campanha
de 1795 deu-se um volte face e após cerca de dois
anos de uma árdua campanha, durante o Inverno, num
local inóspito e terrível, finalmente nos dias 1 e 2
de Março os dois exércitos encontraram-se pela
última vez frente a frente, tendo-os a separar o
Fluvial, os franceses decidiram-se pelo assalto, e
são derrotados; a este ataque seguiu-se outros, que
surtiu o mesmo efeito, colocando-se o inimigo em
fuga, o que adicionando a esta derrota, a vitória
alcançada pela esquadra espanhola na baía de Rosas,
incrementou um tal entusiasmo nas tropas combinadas
Luso-espanholas, que o general Urrutia decide
inverter os papéis e invade, por sua vez, o
território da república francesas; esta evasão foi
executada com um êxito magnífico, tendo sido a
primeira praça atacada Ping Cerda, seguindo-se a
entrega de Belver, tendo-se nessas acções as tropas
portuguesas portado com tal bravura, que o governo
de Madrid lhes rasgou o maiores elogios. Os
franceses à vista dos soldados da península
debandavam por toda a parte, as nossas tropas,
cheias de entusiasmo, devido a este novo renovar de
forças, estavam extremamente motivadas e decididas
em seguir a campanha pela França fora, quando a
notícia do tratado de paz da Basileia apanhou as
tropas vitoriosas de surpresa que de imediato lhes
arrefeceram o ímpeto. Eram tão vantajosas as
condições em que se encontravam as forças combinadas
e tão difícil a defesa da fronteira oriental da
França, pelo inimigo, que para os militares aliados
a paz não foi nada bem recebida.
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| Figura 08
- Tenente General Urrutia |
A
paz entre a França e a Espanha, foi assinada a 22 de
Julho de 1795, e o governo espanhol cometeu então a
vilania de não pronunciar, sequer, o nome do seu
aliado, ficando Portugal, assim, perante a França,
como um dos seus inimigos isolados, quando em boa
verdade, soa tinha combatido em respeito, uma vez
mais, à boa-fé dos tratados acordados por ambos e só
cumpridos por nós, não tendo sido pequeno o espanto
da nossa Divisão Auxiliar, porque o General Forbes,
não recebera nenhum aviso de Lisboa, que o
prevenisse de que se estava a tratar da paz, o que
na realidade Lisboa desconhecia de todo.
Concluiu-se a paz de
um modo pouco honroso para a Espanha, livrando a
França de uma guerra que a estava a incomodar,
assegurando-lhes as vantagens que sempre cabem aos
vencedores; em Madrid a paz anunciou-se a 15 de
Setembro de 1795 e no dia 17 já os prisioneiros
portugueses estavam reunidos à Divisão Auxiliar, tal
era a pressa que os franceses tinham em abandonar as
posições que ocupavam... as praças espanholas, que
estavam na posse do inimigo foram rapidamente
abandonadas, uma vez que estes estavam desejosos em
regressarem aos seus corpos, verificando-se que para
“vencedores” a ansiedade para se verem livres desta
guerra era muito grande!
Uma vez mais, Chaby(2)
esclarece que: (...) quando
o exército espanhol se apresentava numerosos e
aguerrido, favorecido pela vitória, sabiamente
comandado, quase a compensar e fazer esquecer todos
os revezes que o haviam oprimido; próximo a arrojar
do país o exercito contrario, podendo ditar, ou
mesmo aceitar, no território da França, decentes
honrosas condições de paz, foi então o governo da
Espanha, ou o fatal destino a que não podia
esquivar-se esta grande nação, como destino
prescrito pela providencia, impôs ao exército e à
nação uma paz inoportuna e quase vergonhosa, como se
as circunstâncias dos respectivos exércitos fossem
inversas, e o governo da república tivesse o direito
que dá a força, para fazer aceitar a paz estipulada
sob princípios a seu atlante arbitrados (....)
(...) O exército
espanhol na Catalunha ostentava-se ansiosamente
dominado pelo desejo de salvar a honra da pátria,
mas o governo, que nos seus cálculos diplomáticos,
parece, não fazia entrar as considerações sobre as
circunstâncias da guerra, humilhou-se ante as
exigências do governo de Paris, humilhou a nação, e
humilhou o exército! (...) no meio destas pungentes
amarguras e humilhantes abatimentos, surgiu ainda
assim o engrandecimento de um homem: D. Manuel
Godoy, o Duque de Alcudia, que passou a ser o
Príncipe da Paz! (...).
Antes do regresso a
Portugal da Divisão Auxiliar, o rei Carlos IV, para
não se mostrar ingrato e querendo agraciar as nossas
tropas, condecorou o general Forbes com a Grã-cruz
da Ordem de Carlos III, nomeando-o Tenente-General
dos seus exércitos.
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| Figura 09
- Carlos IV |
Finalmente os
componentes da Divisão embarcaram no dia 28 de
Outubro de 1795, rumo à Pátria, entrando a esquadra
na foz do Tejo nos dias 10 e 11 de Dezembro,
chegando os nossos militares a tempo de passarem o
Natal com a família.
O Autor
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