|
O Revólver militar em
Portugal
Desde 1846 que, à imagem e
semelhança do que se observava nas potências militares
europeias, alguns oficiais portugueses manifestaram
interesse no uso em campanha, de uma arma de fogo que
assegurasse a sua defesa imediata.
Na sequência desse pedido,
nesse mesmo ano, o Ministro da Guerra José Jorge
Loureiro, diligenciou para que fosse entregue na Escola
do Exército, um conjunto significativo de diferentes
revólveres de percussão, para que se procedesse à
escolha de um, adequado ao serviço de campanha.
Deste processo, desconhecem-se
os revólveres que terão sido analisados e não resultou
nenhuma decisão oficial, recaindo o silêncio sobre este
assunto.
O distanciamento que Portugal
manteve dos conflitos europeus da 2ª metade do século
XIX, e a natureza da presença militar que manteve nos
territórios ultramarinos, até ao ultimatum,
levaram a que, mesmo no âmbito das profundas reformas
militares da Regeneração, não tivesse sido contemplada a
adopção nem regulamentado o uso, de armas de fogo de
defesa, pelos oficiais em campanha.
No entanto, se a título
particular, diversos oficiais se equipavam com um
revólver à sua escolha, de percussão ou Lefaucheux, a
nível oficial, dividiam-se ainda as opiniões sobre as
vantagens do emprego militar dos revólveres.
Considerados por uns como a arma de excelência para o
oficial do exército, permitindo a sua defesa no campo de
batalha, sem que o seu uso o impedisse de exercer as
suas funções de comando, na direcção e correcção das
pontarias e na correcta aplicação dos fogos [47]; por
outros, era tido como uma arma pesada, incómoda e
sujeita a acidentes pelo mau alinhamento das câmaras do
tambor com o cano. Neste contexto, chegou a ser
levantada a hipótese, por parte alguns oficiais, da
adopção de uma pistola de canos rotativos – “pepperbox”
– ou uma espingada de caça de canos curtos.
|
 |
|
Foto 13 Pistola – revólver de percussão, do tipo
“Pepperbox”. A sua vantagem residia no facto de
não haver a preocupação do correcto alinhamento
do tambor com o cano. |
Na verdade, esta questão
permaneceu em aberto por mais alguns anos, apesar do
restante panorama europeu e da Armada ter adoptado
oficialmente, em 1863, o revólver britânico
Beaumont-Adams, de percussão, em calibre .455. Este
tomou a designação oficial de “Rewolver Adams de
Marinha modelo 1863”
|
 |
|
Foto 14 Revólver Adams de Marinha, modelo 1863, em percussão. Adoptado
pela Armada para o serviço a bordo, foi o
primeiro revólver regulamentar em Portugal. O
furo no punho, destinava-se a passar um fiador.
Col. Particular |
Retomada esta questão, foi
posteriormente submetido a estudos na oficina de
espingardeiros do Arsenal do Exército um revólver do
sistema Lefaucheux, trazido por D. Francisco Mariano
Fernandez, representante de negócios da fábrica de armas
“Hermanos Orbea” de Eibar; bem como 50 outros revólveres
deste tipo, que haviam ficado retidos na alfandega e que
foram aproveitados para ensaios.
Uma vez mais, não resultou
nenhuma escolha destes testes. O sistema Lefaucheux foi
considerado inadequado para o serviço militar, por
carecer de munições específicas e por ser considerado
pouco seguro (dada a fácil deflagração acidental das
munições), tendo sido recomendado o uso de revólveres de
percussão.
Curiosamente, não tendo
resultado nenhuma escolha oficial, foi no entanto
mencionado o revólver Colt-Adams, referido na obra de
Serpa Pinto “Como eu atravessei a África” como sendo o
revólver que o acompanhou na sua expedição à África
Austral em 1877. Tratava-se, presumivelmente, de um
revólver de percussão sistema Daw.
|
 |
|
Fig. 15 Revólver sistema Daw. Referido frequentemente como revólver
Colt-Adams, possivelmente pela sua configuração,
este revólver é idêntico ao que foi usado por
Serpa Pinto na sua travessia de África em 1877. |
Ainda assim, a partir de 1870 e
contrariamente ao parecer emitido pelo Arsenal do
Exército, havia-se generalizado entre os oficiais, o uso
do revólver Lefaucheux, muito frequentemente de fabrico
espanhol e semelhantes ao modelo regulamentar espanhol
1854.
|
 |
|
Fig.. 16 Revólver sistema Lefaucheux fabricado pelos irmãos Orbea,
Espanha. Este revólver, idêntico ao modelo
regulamentar espanhol 1854, por sua vez,
inspirado no modelo regulamentar francês. Estes
revólveres foram utilizados por oficiais
portugueses, a título particular. Col. Fernando
Silva |
Na verdade, só em 1873 parece
que este assunto foi retomado com a seriedade devida e
depois da Guarda Municipal em 1871, se ter equipado com
o revólver Galand-Sommerville, de acção dupla moderna e
fogo central.
|
 |
|
Fig. 17 Revólver Galand-Sommerville, modelo adoptado pela Guarda
Municipal, em 1872. Col. Particular. |
Nesse ano, foi nomeada uma
nova comissão para a escolha do revólver de defesa para
oficiais, chefiada pelo Coronel Francisco Xavier Lopes
(Inspector do Material de Artilharia) e que, pela
primeira vez, integrou oficiais de todas as armas.
Esta comissão, analisou
revólveres de diferentes sistemas quanto às suas
qualidades balísticas, robustez, simplicidade nos actos
de armar e desarmar, facilidade de limpeza e demais
características que permitissem escolher um revólver
adequado ao uso no exército.
Na sequência destes ensaios,
em 1877, foi apresentado, pela pela firma L. Soleil de
Liége, um revólver dito “automático” (entenda-se aqui
automático no sentido de acção dupla moderna), para
munições de fogo central. Pela descrição do seu
funcionamento [5], depreende-se que se trata do revólver
sistema Abadie, que no ano seguinte foi adoptado como
arma regulamentar para oficiais do exército, tomando a
designação oficial “Revólver Abadie para Oficiais
m/1878”.
|
 |
|
Fig. 18 Gravura do regulamento do revólver
Abadie m/1878, destinado ao uso dos oficiais. |
A sua adopção como arma
regulamentar, revela ainda alguma timidez. De facto,
cabia a cada oficial solicitar que lhe fosse distribuída
e comprá-la, pelo preço de 11$000 reis (onze mil reis),
mais as despesas de direitos, sendo este valor
descontado no vencimento, em módicas prestações [4].
Em 1886, pelo seu bom
desempenho, o ministério da Guerra propôs a aquisição de
mais exemplares destes revólveres, destinados agora a
Sargentos e praças de pret de Artilharia e Cavalaria.
Neste contexto, foram efectuados alguns testes, com uma
variante do revólver Abadie, proposta em 1886 pela L.
Soleil de Liége.
|
 |
|
Fig. 19 Revólver S. J. & D. Embora baseado no
sistema Chamelot-Delvigne, não possuía o sistema
de segurança Abadie, pois foi considerado
redundante com o sistema Warnant, que integrava.
Cortesia pessoal do Exmo Sr. Coronel Ribeiro de
Faria |
Este revólver, designado por
S. J. & D. (Simonis, Jarissen & Dumoulin Fréres), do
mesmo calibre e semelhante ao revólver Abadie m/1878,
possuía alegadamente alguns melhoramentos. A tampa da
caixa de mecanismos rodava sobre um eixo na parte
posterior da carcaça, não se separando desta durante a
abertura. No mecanismo de tiro, a mola real, agora de
ramo duplo, ligava ao cão através de uma pequena
corrente, tornando a acção do gatilho mais suave. Porém,
o dispositivo de segurança de carregamento, concebido
pelo Engº Abadie, fora retirado, por ser aparentemente
redundante com o dispositivo de segurança de Warnant,
implementado neste modelo.
Contudo, a comissão de escolha
não prescindiu do dispositivo de segurança Abadie e não
aceitou este revólver proposto, tendo encomendado o
revólver Abadie, com o cano mais longo e algumas outras
pequenas alterações. Este novo revólver recebeu a
designação oficial “Revólver Abadie m/1886”.
|
 |
|
Fig. 20 Gravura do regulamento do Revólver
Abadie m/1886, destinado ao uso por praças de
pret de Cavalaria e Artilharia. |
Ambos os modelos, m/1878 e
m/1886, permaneceram em serviço mesmo depois de em 1908,
ter sido adoptada a “Pistola automática 7,65 mm m/908”
Parabelum.
O modelo 1878, propriedade dos
oficiais, permaneceu na posse destes, tendo alguns
continuado a preferir usar o velho e robusto Abadie em
vez da Parabelum. Na Índia, em 1961 permanecia ainda
como arma distribuída aos oficiais aí colocados, a par
com alguns escassos revólveres Smith & Wesson.
O modelo 1886, logo após ter
sido adquirido, viu o seu uso estendido a forças
policiais como a Guarda Municipal (e após 1911 à GNR -
Guarda Nacional Republicana), à Guarda-fiscal ou ao
recém-criado Corpo de Polícia da cidade da Guarda, que
em 1899 recebeu este revólver destinado a ser usado
pelos cabos. Por fim, alguns destes revólveres, depois
de dispensados pelo Exército, foram distribuídos a
funcionários e administradores nas províncias
ultramarinas e, na metrópole, distribuídos aos
Regedores. Estes representantes da autoridade, em
povoações cuja dimensão não justificava um posto da GNR,
eram investidos de funções de manutenção da ordem
pública e, até à sua extinção em 1974, ainda era
distribuído o revólver Abadie.
O
revólver Abadie na Marinha
Desde 1863 que a Armada havia adoptado um revólver para
o uso dos oficiais. Inicialmente o revólver Adams de
percussão e, em 1874, um outro revólver Adams de fogo
central, ambos em calibre .455 (12 mm).
Com a necessidade de modernizar e adquirir maior numero
de revólveres, agora não só para oficiais, mas também
para sargentos e praças, que por conveniência de serviço
necessitassem de um revólver, a Armada, aproveitando a
experiência do Exército e com a vantagem acrescida da
uniformização de calibres, adquiriu também em 1886 o
novo revólver Abadie, que tomou a designação
regulamentar “Revólver de Marinha, Modelo Abadie, 1886”.
Este revólver foi distribuído a todos os oficiais da
Armada, Aspirantes da Armada e Aspirantes a maquinistas
navais, a par com a espada regulamentar.
Em serviço a bordo ou em
campanha, aos Mestres da Armada, Sargentos-Ajudantes,
Sargentos Quartel-Mestre, Mestres da Charanga, Charanga
e corneteiros do corpo de marinheiros, Contramestres e
ajudantes de manobra, ajudantes maquinistas navais,
carpinteiros, calafates, fiéis de géneros, enfermeiros
navais e praças condutoras de ambulâncias, era
igualmente distribuído o revólver Abadie.
<<<Página Anterior
Página seguinte>>>
|