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Revólver Abadie m/ 1878 e m/1886

 

O Revólver militar em Portugal

Desde 1846 que, à imagem e semelhança do que se observava nas potências militares europeias, alguns oficiais portugueses manifestaram interesse no uso em campanha, de uma arma de fogo que assegurasse a sua defesa imediata.

Na sequência desse pedido, nesse mesmo ano, o Ministro da Guerra José Jorge Loureiro, diligenciou para que fosse entregue na Escola do Exército, um conjunto significativo de diferentes revólveres de percussão, para que se procedesse à escolha de um, adequado ao serviço de campanha.

Deste processo, desconhecem-se os revólveres que terão sido analisados e não resultou nenhuma decisão oficial, recaindo o silêncio sobre este assunto.

O distanciamento que Portugal manteve dos conflitos europeus da 2ª metade do século XIX, e a natureza da presença militar que manteve nos territórios ultramarinos, até ao ultimatum, levaram a que, mesmo no âmbito das profundas reformas militares da Regeneração, não tivesse sido contemplada a adopção nem regulamentado o uso, de armas de fogo de defesa, pelos oficiais em campanha.

No entanto, se a título particular, diversos oficiais se equipavam com um revólver à sua escolha, de percussão ou Lefaucheux, a nível oficial, dividiam-se ainda as opiniões sobre as vantagens do emprego militar dos revólveres. Considerados por uns como a arma de excelência para o oficial do exército, permitindo a sua defesa no campo de batalha, sem que o seu uso o impedisse de exercer as suas funções de comando, na direcção e correcção das pontarias e na correcta aplicação dos fogos [47]; por outros, era tido como uma arma pesada, incómoda e sujeita a acidentes pelo mau alinhamento das câmaras do tambor com o cano. Neste contexto, chegou a ser levantada a hipótese, por parte alguns oficiais, da adopção de uma pistola de canos rotativos – “pepperbox” – ou uma espingada de caça de canos curtos.

Foto 13 Pistola – revólver de percussão, do tipo “Pepperbox”. A sua vantagem residia no facto de não haver a preocupação do correcto alinhamento do tambor com o cano.

Na verdade, esta questão permaneceu em aberto por mais alguns anos, apesar do restante panorama europeu e da Armada ter adoptado oficialmente, em 1863, o revólver britânico Beaumont-Adams, de percussão, em calibre .455. Este tomou a designação oficial de “Rewolver Adams de Marinha modelo 1863

Foto 14 Revólver Adams de Marinha, modelo 1863, em percussão. Adoptado pela Armada para o serviço a bordo, foi o primeiro revólver regulamentar em Portugal. O furo no punho, destinava-se a passar um fiador. Col. Particular

Retomada esta questão, foi posteriormente submetido a estudos na oficina de espingardeiros do Arsenal do Exército um revólver do sistema Lefaucheux, trazido por D. Francisco Mariano Fernandez, representante de negócios da fábrica de armas “Hermanos Orbea” de Eibar; bem como 50 outros revólveres deste tipo, que haviam ficado retidos na alfandega e que foram aproveitados para ensaios.

Uma vez mais, não resultou nenhuma escolha destes testes. O sistema Lefaucheux foi considerado inadequado para o serviço militar, por carecer de munições específicas e por ser considerado pouco seguro (dada a fácil deflagração acidental das munições), tendo sido recomendado o uso de revólveres de percussão.

Curiosamente, não tendo resultado nenhuma escolha oficial, foi no entanto mencionado o revólver Colt-Adams, referido na obra de Serpa Pinto “Como eu atravessei a África” como sendo o revólver que o acompanhou na sua expedição à África Austral em 1877. Tratava-se, presumivelmente, de um revólver de percussão sistema Daw.

Fig. 15 Revólver sistema Daw. Referido frequentemente como revólver Colt-Adams, possivelmente pela sua configuração, este revólver é idêntico ao que foi usado por Serpa Pinto na sua travessia de África em 1877.

Ainda assim, a partir de 1870 e contrariamente ao parecer emitido pelo Arsenal do Exército, havia-se generalizado entre os oficiais, o uso do revólver Lefaucheux, muito frequentemente de fabrico espanhol e semelhantes ao modelo regulamentar espanhol 1854.

Fig.. 16 Revólver sistema Lefaucheux fabricado pelos irmãos Orbea, Espanha. Este revólver, idêntico ao modelo regulamentar espanhol 1854, por sua vez, inspirado no modelo regulamentar francês. Estes revólveres foram utilizados por oficiais portugueses, a título particular. Col. Fernando Silva

Na verdade, só em 1873 parece que este assunto foi retomado com a seriedade devida e depois da Guarda Municipal em 1871, se ter equipado com o revólver Galand-Sommerville, de acção dupla moderna e fogo central.

Fig. 17 Revólver Galand-Sommerville, modelo adoptado pela Guarda Municipal, em 1872. Col. Particular.

Nesse ano, foi nomeada uma nova comissão para a escolha do revólver de defesa para oficiais, chefiada pelo Coronel Francisco Xavier Lopes (Inspector do Material de Artilharia) e que, pela primeira vez, integrou oficiais de todas as armas.

Esta comissão, analisou revólveres de diferentes sistemas quanto às suas qualidades balísticas, robustez, simplicidade nos actos de armar e desarmar, facilidade de limpeza e demais características que permitissem escolher um revólver adequado ao uso no exército.

Na sequência destes ensaios, em 1877, foi apresentado, pela pela firma L. Soleil de Liége, um revólver dito “automático” (entenda-se aqui automático no sentido de acção dupla moderna), para munições de fogo central. Pela descrição do seu funcionamento [5], depreende-se que se trata do revólver sistema Abadie, que no ano seguinte foi adoptado como arma regulamentar para oficiais do exército, tomando a designação oficial “Revólver Abadie para Oficiais m/1878”.

Fig. 18 Gravura do regulamento do revólver Abadie m/1878, destinado ao uso dos oficiais.

A sua adopção como arma regulamentar, revela ainda alguma timidez. De facto, cabia a cada oficial solicitar que lhe fosse distribuída e comprá-la, pelo preço de 11$000 reis (onze mil reis), mais as despesas de direitos, sendo este valor descontado no vencimento, em módicas prestações [4].

Em 1886, pelo seu bom desempenho, o ministério da Guerra propôs a aquisição de mais exemplares destes revólveres, destinados agora a Sargentos e praças de pret de Artilharia e Cavalaria. Neste contexto, foram efectuados alguns testes, com uma variante do revólver Abadie, proposta em 1886 pela L. Soleil de Liége.

Fig. 19 Revólver S. J. & D. Embora baseado no sistema Chamelot-Delvigne, não possuía o sistema de segurança Abadie, pois foi considerado redundante com o sistema Warnant, que integrava. Cortesia pessoal do Exmo Sr. Coronel Ribeiro de Faria

Este revólver, designado por S. J. & D. (Simonis, Jarissen & Dumoulin Fréres), do mesmo calibre e semelhante ao revólver Abadie m/1878, possuía alegadamente alguns melhoramentos. A tampa da caixa de mecanismos rodava sobre um eixo na parte posterior da carcaça, não se separando desta durante a abertura. No mecanismo de tiro, a mola real, agora de ramo duplo, ligava ao cão através de uma pequena corrente, tornando a acção do gatilho mais suave. Porém, o dispositivo de segurança de carregamento, concebido pelo Engº Abadie, fora retirado, por ser aparentemente redundante com o dispositivo de segurança de Warnant, implementado neste modelo.

Contudo, a comissão de escolha não prescindiu do dispositivo de segurança Abadie e não aceitou este revólver proposto, tendo encomendado o revólver Abadie, com o cano mais longo e algumas outras pequenas alterações. Este novo revólver recebeu a designação oficial “Revólver Abadie m/1886”.

Fig. 20 Gravura do regulamento do Revólver Abadie m/1886, destinado ao uso por praças de pret de Cavalaria e Artilharia.

Ambos os modelos, m/1878 e m/1886, permaneceram em serviço mesmo depois de em 1908, ter sido adoptada a “Pistola automática 7,65 mm m/908” Parabelum.

O modelo 1878, propriedade dos oficiais, permaneceu na posse destes, tendo alguns continuado a preferir usar o velho e robusto Abadie em vez da Parabelum. Na Índia, em 1961 permanecia ainda como arma distribuída aos oficiais aí colocados, a par com alguns escassos revólveres Smith & Wesson.

O modelo 1886, logo após ter sido adquirido, viu o seu uso estendido a forças policiais como a Guarda Municipal (e após 1911 à GNR - Guarda Nacional Republicana), à Guarda-fiscal ou ao recém-criado Corpo de Polícia da cidade da Guarda, que em 1899 recebeu este revólver destinado a ser usado pelos cabos. Por fim, alguns destes revólveres, depois de dispensados pelo Exército, foram distribuídos a funcionários e administradores nas províncias ultramarinas e, na metrópole, distribuídos aos Regedores. Estes representantes da autoridade, em povoações cuja dimensão não justificava um posto da GNR, eram investidos de funções de manutenção da ordem pública e, até à sua extinção em 1974, ainda era distribuído o revólver Abadie.

O revólver Abadie na Marinha

            Desde 1863 que a Armada havia adoptado um revólver para o uso dos oficiais. Inicialmente o revólver Adams de percussão e, em 1874, um outro revólver Adams de fogo central, ambos em calibre .455 (12 mm).

            Com a necessidade de modernizar e adquirir maior numero de revólveres, agora não só para oficiais, mas também para sargentos e praças, que por conveniência de serviço necessitassem de um revólver, a Armada, aproveitando a experiência do Exército e com a vantagem acrescida da uniformização de calibres, adquiriu também em 1886 o novo revólver Abadie, que tomou a designação regulamentar “Revólver de Marinha, Modelo Abadie, 1886”.

            Este revólver foi distribuído a todos os oficiais da Armada, Aspirantes da Armada e Aspirantes a maquinistas navais, a par com a espada regulamentar.

Em serviço a bordo ou em campanha, aos Mestres da Armada, Sargentos-Ajudantes, Sargentos Quartel-Mestre, Mestres da Charanga, Charanga e corneteiros do corpo de marinheiros, Contramestres e ajudantes de manobra, ajudantes maquinistas navais, carpinteiros, calafates, fiéis de géneros, enfermeiros navais e praças condutoras de ambulâncias, era igualmente distribuído o revólver Abadie.


 

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