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Revólver Abadie m/ 1878 e m/1886

 

REVÓLVER ABADIE
m/ 1878 e m/ 1886

Jaime Regalado



Introdução à evolução do revólver militar

Armas de fogo de tiro múltiplo, que empregam sistemas de câmaras ou canos rotativos, são conhecidas desde o século XVII. Tratadas no entanto como curiosidades tecnológicas, conservaram-se longe de qualquer aplicação militar até aos meados século XIX.

Fig. 1 – Espingarda revólver do século XVII, de fabrico português.
Sistema de ignição de pederneira, com um fecho variante do fecho de nó com travão à portuguesa. O tambor é rodado manualmente e imobilizado por uma mola.
Colecção Araújo – Museu Militar do Porto

A dificuldade em obter um perfeito alinhamento das câmaras com o cano e a pouca precisão e alcance que resultavam do escape de gases entre o tambor e o cano, foram os principais obstáculos ao desenvolvimento e ao uso generalizado destas armas.

Somente nos meados do século XIX, na sequência da revolução industrial, com o forte desenvolvimento da tecnologia metalúrgica ao nível dos materiais e, sobretudo, dos processos de fabrico mecanizados, foi possível tornar estas armas fiáveis e a um preço que permitisse o uso generalizado nas forças militares.

            Quando pela primeira vez, em 1819, um revólver de pederneira, desenhado pelo espingardeiro de Boston, Elisha Collier, foi submetido a testes perante uma comissão de escolha de armamento, em Woolwich – Inglaterra, este foi considerado, (pela dita comissão), uma arma interessante mas demasiado complicada.

Fig 2  Revólver de pederneira, desenhado por Elisha Collier, de  Bóston,  e submetido a testes para revólver militar, em 1819, em Woolwich – Inglaterra. Colecção particular

Decorreriam cerca de quinze anos para que, pelo génio criativo e inovador de Samuel Colt, o revólver detivesse a atenção de civis e militares.

Após um primeiro período de pouco sucesso comercial, o conhecido episódio, no verão de 1844, em que uma força de 15 “Texas Rangers”, armados com revólveres Colt-Patterson derrotou 75 índios Comanche, retirou estas armas do anonimato e da desconfiança, atribuindo-lhe a merecida importância.

Fig 3 – Revólver COLT –Patterson, sobre os desenhos da patente. O seu nome advém da localização da fábrica de Samuel Colt, em Patterson. In COLT – Na American Legend

Com o início das Guerras Mexicanas, Samuel Colt foi persuadido pelo Capitão Walker, a desenvolver um revólver mais adequado ao uso militar, de onde resultou, em 1847, o revólver Colt-Walker, o primeiro revólver a ser oficialmente adoptado pelo exército americano.

Fig 4 – Revólver COLT –WALKER, o primeiro revólver a ser oficialmente adoptado pelo exército americano. Colecção Particular.

As Guerras Mexicanas (1846 – 1848), a Guerra da Secessão (1861–1865), assim como a conquista do Oeste e a corrida ao ouro, revelaram um novo e promissor mercado para estas armas, consolidando o papel relevante do revólver de aplicação militar.

Na América do Norte, pela natureza dos conflitos internos, o emprego de armas de repetição, desde cedo se revelou uma prioridade. O revólver tornou-se a arma de excelência da cavalaria, acabando o seu uso por ser alargado a outras tropas.

Apesar de algumas tentativas de produzir espingardas ou carabinas de repetição de tambor rotativo, foi nas armas de punho que este sistema floresceu.

Paralelamente, na Europa, os conflitos emergentes entre as principais potencias militares e seus aliados e, sobretudo, as cada vez mais frequentes revoltas nos territórios coloniais, associado ao uso crescente de armas de fogo pelos revoltosos, revelaram a necessidade de equipar os oficiais com uma arma, para além da espada, que assegurasse a sua defesa imediata, tendo a escolha recaído igualmente sobre o revólver.

Surgem assim dois conceitos distintos, relacionados com a génese do emprego militar do revólver. Na América do Norte, o objectivo era providenciar às tropas uma arma de repetição, manobrável, onde se requeria precisão. Nestas armas, o cão precisava de ser armado manualmente antes de cada tiro e o gatilho, com uma pequena pressão, desarmava o mecanismo, abatendo-se o cão sobre a escorva, efectuando-se assim o disparo – acção simples (“single action”).

Na Europa, o revólver teve a sua aplicação militar como arma de defesa para oficiais, onde a precisão não era um requisito fundamental. Na verdade, pretendia-se um tiro rápido e a muito curta distância, sem grande possibilidade de efectuar pontaria. São armas que privilegiavam os grandes calibres e em que o gatilho assegura, simultaneamente, a acção de armar o cão e de o libertar, quando o gatilho é completamente premido –acção dupla (“double action”) – efectuando o disparo.

Após o êxito da Colt na grande exposição de Londres, em Hyde Park, em 1851, onde se fez representar com um notável conjunto de armas, aliado a um excelente trabalho de relações públicas, estabeleceu uma fábrica em Londres, junto ao Tamisa.

Fig 5 – Stand da Colt na Exposição Universal de Londres, em 1851, em Hyde Park.

Fig. 6 – Gravura da Fábrica da Colt, em Londres, junto ao Tamisa, que funcionou entre 1852 e 1857.

Esta fábrica prosperou, sobretudo, durante a Guerra da Crimeia. Findo este conflito, a reduzida procura de armas e a forte concorrência dos revólveres britânicos, principalmente os concebidos por Robert Adams e construídos em parceria com os irmãos John e George Deane, dificultaram a sua presença no mercado europeu, sobretudo no mercado britânico.

Contudo, seriam as diferenças conceituais entre o revólver como arma de repetição –acção simples – e o revólver como arma de defesa – acção dupla –, que limitariam a preferência pelos revólveres Colt na Europa e que conduziram ao encerramento da fábrica de Londres em 1857.

Também as diferenças de construção entre estes dois revólveres, Colt e Deane-Adams, eram muito significativas. Os revólveres Colt, com os seus componentes fabricados por processos mecanizados, não exigiam uma mão-de-obra qualificada, o que permitia maior produção a mais baixo custo. Porém, por conveniência de fabrico dos diversos componentes, a carcaça não era fechada (“open-frame”), imprimindo-lhe uma aparência menos robusta. Os revólveres Deane-Adams, com a carcaça construída numa peça única, com uma ponte sobre o tambor (“solid-frame”), aparentavam maior robustez e resistência aos grandes calibres que habitualmente possuíam. Porém, este trabalho era sobretudo manual, com muito melhor acabamento, exigindo uma mão-de-obra qualificada com os respectivos reflexos no preço.

Fig 7 Revólver COLT de acção simples (Esquerda) e Revólver Deane-Adams 1851 de acção dupla (Direita). Aspecto geral do fabrico americano e britânico, O primeiro, de carcaça aberta, com os seus componentes fabricados mecanicamente, de baixo preço. O segundo, de carcaça fechada, de acabamento mais cuidado, componentes principais fabricados manualmente, de custo mais elevado.

A guerra da Crimeia (1853-1856) e as revoltas nos Impérios coloniais foram os bancos de ensaio destes dois conceitos de revólver, ambos defensáveis, acabando na Europa, por se manter os sistemas de acção dupla e, na América do Norte, o de acção simples. A Guerra da Secessão (1861-1865), decorreu quase exclusivamente com o uso de revólveres de acção simples.

Em 1853, um notável espingardeiro de Birmingham, William Tranter, havia desenvolvido um mecanismo que permitia a conjugação destes dois sistemas. Um revólver de percussão em que, um gatilho permite armar o cão e outro que, quando levemente premido, desarma o cão e efectua um disparo, tão rápido como os revólveres de acção dupla e com a suavidade e precisão dos revólveres de acção simples. Havia nascido a acção dupla moderna, onde se combina a acção simples com a antiga acção dupla.

Fig. 8  Folha de instruções do revólver concebido por William Tranter.

Fig 9  Revólver William Tranter, 2º modelo, com alavanca de carregamento do tipo Kerr. O gatilho inferior permite armar o cão enquanto o gatilho superior, dentro do guarda-mato, desarma o cão e efectua o disparo. Colecção Particular

Fig. 10.a e 10.b  Funcionamento do duplo gatilho do revólver Tranter 2º modelo. a) armar o cão. b) disparo.

Posteriormente, este mecanismo evoluiu para os mecanismos que designaremos por “acção dupla moderna”, com um único gatilho, em que o cão pode ser armado com o polegar e disparado por suave pressão do gatilho ou, puxando o gatilho, este arma o cão que no final do seu percurso liberta-se efectuando o disparo.

Todos estes revólveres de percussão apresentavam o problema de demora do carregamento pela boca, das câmaras do tambor.

Apesar do surgimento dos cartuchos de papel, contendo a carga de pólvora e o projéctil, em que a escorva (cápsula fulminante) era aplicada separadamente na chaminé, estes eram ainda uma limitação, sobretudo a nível militar, que viria a ser ultrapassada com a inclusão da escorva no cartucho. Primeiro com o sistema de agulha e, de forma mais eficaz, com o cartucho metálico.

Fig. 11  Munição para revólver de percussão, com cartucho em papel combustível. Fabricada pela Eley, Inglaterra. Col. particular

O cartucho metálico, concebido por Casimir Lefaucheux em 1828 e que se generalizou por toda a Europa continental a partir da 2ª metade do século XIX, constituiria um marco incontornável na evolução das munições, com os respectivos reflexos nas armas de fogo, generalizando e consolidando o carregamento pela culatra, sobretudo em revólveres e em espingardas de caça.

Contudo, entre os militares, este sistema não inspirava grande confiança, pela proximidade entre a escorva e a carga principal, que se traduzia na facilidade com que estas munições deflagravam acidentalmente.

Apesar do emprego das munições Lefaucheux se reservar principalmente ao uso civil, alguns países como França, Espanha, Alemanha ou Itália, entre outros, adoptaram regulamentarmente revólveres do sistema Lefaucheux.

Paralelamente, na América do Norte em 1855, um ilutre desconhecido Rollin White, registou a patente para um revólver em que o tambor recebia munições de cartucho metálico de percussão anelar. Quando Horace Smith e Daniel Wesson, concebem uma arma idêntica, ao tentar registar a patente, deparam-se com a patente de White. É neste contexto que a firma Smith & Wesson contacta White e nasce o revólver Smith & Wesson nº 1, produzido a partir de 1857, para cartuchos metálicos de percussão anelar, dando início a um percurso de grande sucesso nos revólveres militares e civis, um pouco por todo o mundo, com a natural evolução para fogo central.

Fig. 12 Revólver Smith & Wesson nº 1, para munições de cartucho metálico e percussão anelar. Col. particular

Com mais ou menos melhoramentos e mecanismos mais ou menos sofisticados, os revólveres pontificaram militarmente como arma de repetição ou de defesa, até ao primeiro quartel do século XX., altura em que as armas automáticas ganharam a fiabilidade necessária à aplicação militar.



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